Editora
"Poucos logótipos das numerosas empresas comerciais e industriais, dispersas pelos múltiplos sectores do mercado nacional, possuirão o poder sugestivo do símbolo gráfico que a Coimbra Editora adoptou para identificar, através da imagem, a sua personalidade jurídica. Trata-se de uma figura humana, com o doce perfil de um busto de mulher e a altivez olímpica de uma deusa da mitologia, que empunha um facho enorme cuja luz irradia para fora do círculo que a emoldura. Muito por debaixo da chama que o braço enérgico da esbelta jovem ergue bem acima da sua fronte, uma legenda latina (na língua universal dos juristas) se incumbe de traduzir, em termos bem simbólicos, a missão transcendente da pequena instituição: ab uno ad omnes.

E essa tem sido, na verdade, a tarefa gigantesca a que desde o dia já bem longínquo de 7 de Agosto de 1920 se tem firmemente dedicado a sociedade nascida na data do feliz encontro entre um grupo de professores universitários, que na altura constituíam o escol intelectual da cidade da Rainha Santa (Guilherme Moreira, Oliveira Salazar, Alberto dos Reis, Paulo Mereia, Elísio de Moura, Magalhães Colaço, Manuel Rodrigues e tantos mais), empenhado no desenvolvimento cultural do País, de um lado, e os experimentados livreiros Francisco França e Arménio Amado, que não eram apenas prestigiados comerciantes na modesta praça de Coimbra; mas também verdadeiros mestres na arte tradicional da impressão em Portugal.

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E quem acompanhar atentamente a lista enorme das obras, de maior ou menor tomo, sucessivamente lançadas através da sua iniciativa no mercado livreiro nacional, facilmente verificará que, em todos as sectores do Direito e da mais variada proveniência (desde a cátedra universitária e as mais altas posições hierárquicas da judicatura e do Ministério Publico, até ao gabinete de estudos dos advogados e consultores jurídicos, passando pelo modesto local de trabalho de conservadores, notários e funcionários de justiça), largas centenas foram os focos de luz que a Coimbra Editora foi buscar a oficina dos autênticos cinzeladores da ciência jurídica para inteligentemente os lançar no mundo da cultura do direito, abstraindo da sua actividade paralela na literatura escolar da juventude.

Mas há um outro aspecto dessa actividade empresarial que não será descabido realçar. É que a Coimbra Editora, excedendo de algum modo a imagem gráfica do seu emblema profissional, não se tem limitado ao papel de simples portadora da chama sagrada da cultura, que outros acendem na recolhida penumbra do seu gabinete de trabalho. Ela própria, deitando discretamente a mão do seu auxílio mecenático a muitos daqueles a quem cresce tantas vezes em talento o que mingua em posses materiais, tem em muitos casos ajudado a acender a chama da publicação, adiantando em jeito de subsídio reembolsável todos os encargos da edição. E qual seja a distância que medeia entre a riqueza da produção da obra literária ou cientifica e a fruição pública do capital por ela criada, que o digam os incontáveis tesouros literários que jazem como papéis inúteis no espólio dos autores talentosos que não encontraram, nem sequer no património dos familiares endinheirados, o editor interessado em promover a sua publicidade.

A segunda nota é de carácter ainda mais íntimo do que a anterior, porque penetra numa zona do coração da empresa, geralmente ignorada do grande público. É que no circuito criado, entre o original manuscrito do autor e os caracteres impressos da obra vinda a público, nem sempre corre apenas a actividade de carácter puramente mecânico desenvolvida pela máquina impressora. Especialmente nas publicações de natureza periódica, como a Revista de Legislação e o próprio Boletim da Faculdade de Direito, de saída mais espaçada, sobre o diálogo gerado pela circulação de ida e volta das garatujas, muitas vezes quase indecifráveis, do manuscrito do autor e as provas compostas e revistas na Tipografia, paira a cada passo uma onda curiosa de afectividade, que constitui um fenómeno psicológico e social digno de alguma consideração por parte do observador. Eu próprio, quer como autor de obras editadas pela Casa, quer como director da publicação, mais assíduo visitante da Tipografia, me senti a cada passo envolvido nesse eflúvio de recíproca aproximação pessoal criado pelo sentimento de cooperação, cada qual a seu modo, nas obras de feitura comum postas ao seviço do Direito, em especial, e da Justiça, em geral.
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Antunes Varela, Ab Vno Ad Omnes


"Tendo-se Coimbra desenvolvido industrialmente, e de modo notável, no decénio de 1910-1920, não havia nesta cidade nem uma grande casa editora nem uma tipografia bem montada. À parte a da Imprensa da Universidade, que estava longe de fazer face às exigências de publicidade de um centro de produção intelectual como Coimbra, não havia onde se imprimissem as revistas que aqui viam luz, nem os numerosos livros que aqui se escreviam (...). Durante o referido decénio, alguns livreiros editores, bem como os autores que se constituíram editores dos seus próprios livros, viram-se na necessidade de fazer imprimir fora (...) as obras de maior vulto, assim pedindo à indústria alheia o que só a indústria local deveria fornecer. E essa falta, além dos prejuízos e incómodos que ocasionava, não era nada proveitosa para a velha cidade universitária.

Daí nasceu o pensamento de se constituir uma grande empresa que, de posse de suficiente capital, pudesse, antes de mais, pôr de pé uma vasta oficina tipográfica dotada de boas máquinas, movidas a energia eléctrica (até então, tudo se imprimia em prelos manuais ou em máquinas movidas pelo braço do homem, exigindo um pesado esforço e dando insignificante rendimento), onde pudessem imprimir-se com a maior perfeição todos os trabalhos, e que ficasse também habilitada a fazer edições, ainda que as mais dispendiosas, remunerando os autores e incitando-os a produzir, pela antecipada certeza de que haveria um editor para o seu trabalho, e de que não trabalhariam em vão
(...).

Em Agosto de 1920 estava constituída a sociedade por quotas Coimbra Editora, Limitada, que continuou sem interrupção com a livraria tomada de trespasse e diligenciou sem demora instalar oficinas de tipografia e encadernação, ao mesmo tempo que cuidava da construção do vasto edifício da Avenida do Arnado, em que veio a instalar oficinas, armazém e escritórios (...) que, «como uma brilhante improvisação, se ergueu do solo, elegante e vasto, no espaço de poucos meses», construído sob a orientação técnica do distinto engenheiro Carlos Michaëlis de Vasconcelos, conhecedor das melhores instalações congéneres da Alemanha, onde a arte tipográfica se elevara a imprevistas culminâncias (...)."

José Pinto Loureiro, Arquivo Coimbrão, 1954


Hoje, mais de 90 anos volvidos sobre a data da sua constituição, reforçada na sua identidade originária, a Coimbra Editora prossegue determinada em cumprir com a missão que motivou o seu aparecimento.